Do passageiro

Não consigo ler dentro do carro, muito menos no ônibus. Em São Paulo, os motoristas nos conduzem como se tivessem a incumbência de carregar porcos para o abate levar alguns pacotes para entrega. As arrancadas são sensacionais. Se você não se dá bem com o próprio equilíbrio, precisa passar por um treinamento antes de entrar em um ônibus por aqui. A não ser que você goste de levar algumas pancadas e exibir seus roxos por aí.

Nessas empreitadas, passei a admirar os seres humanos aptos a lerem E se equilibrarem ao mesmo tempo. Uns lindos, diga-se de passagem. Mesmo quando leem literatura do meu contragosto. No metrô, as coisas ficam um pouco mais fáceis – se não for algo entre 18h e 19h, claro. Encosto em algum canto ou me sento e consigo ler tranquilamente. Provavelmente em consequência do ritmo contínuo. Faço disso ritual, virou quase uma mania (ou TOC para quem preferir) – não entro no metrô sem um livro.

Não me levem a mal caso eu dispense companhias. Às vezes evito de propósito porque preciso daquele diálogo, dessa forma de fuga às avessas. Pois é uma forma de abstrair o mundo real, de fugir – só que para outra dimensão. Abraçar a causa da cidade, dos personagens, e de tudo que engloba o livro em questão. Mesmo que o caminho seja curto, coisa de 10, 15 minutos, já é um tempo precioso. Sem motivo aparente, também prefiro pular a parte em que a leitura tá tão boa que você vai parar na última estação da linha e só percebe porque o trem fica, de súbito, vazio.

Ainda falta muito, porém, para adquirir disciplina. Perco o controle das reações e quando me dou conta já fiz um comentário em voz alta, comecei a rir copiosamente, ou fiquei com os olhos marejando. Uma vergonha. Não contente em me humilhar por meio de situações banais do cotidiano, faço a gentileza de causar constrangimento quando estou envolvida em uma das minhas atividades favoritas. É meio impulsivo, uma resposta natural do meu organismo. Estou tão inserida naquele espaço que não sobra tempo para pensar “opa, controle suas reações!” – chega a ser um reflexo de quase tudo na vida, mas não entremos em detalhes neste momento.

No final do ano passado viajava com A Brincadeira Favorita, de Leonard Cohen. Tudo muito tranquilo, situações corriqueiras, coisas que poderiam acontecer com qualquer um. Até um certo reencontro, que em míseras duas páginas provocou um disfunção maluca de lágrimas e do impulso de fechar o livro e correr para a saída (e não virar a depressiva do metrô).

“Ela chorava e mostrava a palma da mão como se apertasse, para trás e para frente, um semáforo aflito, como que para apagar algo no ar da manhã, por favor, todos os contatos, votos, acordos, novos ou antigos…”

SÓ uma descrição de uma personagem derramando lágrimas, isso e nada mais. Lá está você, com livro azul da capa bonita, trav’ling lady, a TPM a um nível não aceitável pela sociedade, com o rosto todo vermelho e chorando como se o autor tivesse te pedido para imitar a moça sofrida. A culpa foi do Cohen, mas é preciso dizer que poucos livros fogem dessa experiência. Confesso que já ocorreu até um impulso de jogar o livro nos trilhos só de raiva por terem matado um personagem, por exemplo. Raramente escapo das reações adversas, mesmo tendo recebido avisos de outros leitores.

E acreditem, no episódio A Brincadeira Favorita, bastou uma escada rolante, já com a obra devidamente fechada, para prestar atenção aos arredores como se nada tivesse acontecido. Rápida transição para o mundo real em decorrência do choque de realidade de pessoas berrando CHIPDATIMCINCOREAISCOMBÔNUSDE15.

Portanto, se você se deparar com uma pessoa tendo reações estranhas com livros em mãos, não julgue. Respeite o nosso momento de envolvimento como se fosse só mais um louco do metrô e nada mais. Nossa humilhação pública momentânea fuga da realidade merece respeito.

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