12:51

No auge da minha pré-adolescência as grandes expectativas da minha vida estavam resumidas a esporádicas viagens para o interior de São Paulo. Reclusa a um nível de esquisitice elevado, aguardava ansiosa pelo dia em que meu pai mandaria arrumar as malas para visitar uma das minhas irmãs. Nada pessoal, adoramos família e tudo mais, só que passar uns dias com elas significava banca farta de novidades e revistas que não existiam na província E lojinha de CDs com o vendedor mais simpático de todos os tempos. Minha verve interesseira aflorou nessa época.

Uma morava em Rio Preto, a outra em Ribeirão Preto. Confesso não morrer de amores pela primeira cidade, mas a segunda nunca me decepcionou. Me conquistou tanto que eu mal imaginava como seria a vida no momento em que minha irmã pegasse o diploma. Quem morou lá entre 1999 e 2002 vai perguntar qual era a graça. Veja bem, você lá, com 12/13 anos estampados na cara oleosa cheia de espinhas, meio mendiga com as suas camisetas de banda, casualmente chamando uma cidade atrasada de lar. Te jogam em um lugar onde seu círculo social se resume a aspirantes a atores, galera que pouco liga se você quer sair com um abacaxi na cabeça – com bancas, livrarias e lojas de discos com lançamentos de verdade. Era o paraíso da adolescente rebelde.

Se hoje morro de vergonha da criatura desprezível que fui naqueles dias, trouxe comigo uma bagagem cultural da qual me orgulho bastante. Claro que essa carga veio cheia de porcarias que prefiro não comentar – meros detalhes, algo que hoje me faz rir. Até hoje matuto para lembrar o nome do meu lugar favorito em Ribeirão. Se brincar nem existe mais. Lembro apenas que ficava perto de uma praça imensa (que por um acaso abrigava o Pinguim, aquele lugar das cervejas maravilhosas) e meu pai, essa pessoa sagaz e cheia de querer agradar os filhos, fazia questão de me levar até lá no primeiro dia de viagem. Ele me forçou a batizar o espaço de “paraíso”.

E ele sentava em um canto enquanto eu me divertia anotando dicas do vendedor. Um senhor pelos 40 e tantos anos, solícito, que pegava as minhas listas na maior boa vontade e ainda se divertia recomendando novidades. Minha memória ruim apagou algumas passagens, mas um passeio em 2003, (quando minha irmã já estava formada e morando no Rio de Janeiro) marcou por apresentar dois discos que até hoje estão comigo – ligeiramente furados e travando nas passagens de uma faixa a outra. Porque naquela época nem vislumbrava a possibilidade de ter um Ipod. Acreditem vocês, minha compulsão por música começou quando eu fazia parte de uma geração que desconhecia essa bruxaria de fazer downloads. Eu pressentia que seria um dos meus últimos passeios para a cidade. Pedi para indicar dois grandes lançamentos do segundo semestre.

Ele chegou com o Room on Fire, dos Strokes, e Hail to the Thief, do Radiohead. Meu primeiro guru da música viria só dois anos mais tarde e céus, como aquilo foi representativo para mim. Não tinha dimensão na época, claro. Confesso que coloquei os cds com receio no player e quase não acreditei nos meus ouvidos quando me peguei embasbacada, achando tudo incrível. Lembram-se do Yahoo buscas? Foi meu aliado ao procurar por biografia, discos anteriores… sem ter a menor ideia de que um dia teria toda a discografia em casa, sem sequer ter ideia que veria essas duas bandas que conheci por uma despretensiosa indicação ao vivo. Naquela tarde, ainda cansada da longa viagem de volta para Campo Grande, nem desconfiava que entrariam no meu hall de bandas favoritas.

Se não fossem os Strokes, eu não me faria de louca pedindo pra desconhecidos me fotografarem ao lado de um carro da polícia em NY por motivos de: New York City Cops, they ain’t too smart. Se não fosse o Radiohead, eu jamais passaria pela embaraçosa situação de explicar que minha camiseta de We suck young blood não era uma homenagem à saga Crepúsculo.

No momento, desfruto de uma nostalgia que mal cabe no corpo. A complicação que é comportar algo tão bom que foi paulatinamente se esvaindo em meio aos percalços da vida. Ainda não descobri a fórmula ideal para tratar desses sentimentos. Para suprimir a ausência desses discos na minha casa – e entendam, uma coisa é tê-los no iTunes, outra é poder olhar para o encarte gasto e cheio de gordura dos meus dedos que cansaram de consultá-los – me perdi entre citações e vídeos no youtube.

Precisava gravar tudo isso em letras e achei por bem compartilhar. E nem me perguntem sobre a situação atual dessas bandas – I’m blinded by nostalgia.

what ever happened

[I want to be forgotten/ and I don’t want to be reminded/ you say “please don’t make this harder”/ no, I won’t yet]

reptilia

[I said please don’t slow me down/ If I’m going too fast/ You’re in a strange part of our town]
[Now every time that I look at myself/ “I thought I told you/ this world is not for you”]

between love & hate

[Am I wrong?/ don’t sing along with me/ I said I was fine,/ it’s just the second time We lost the war]

12:51

[friday nights have been lonely/ change your plans and then phone me]
[kiss me now that I’m older/ I wont try to control you/ friday nights have been lonely/ take it slow but don’t warn me]

under control

[I don’t want to waste your time/ I just want to say -/ I’ve got to say,/ we worked hard, darling/ we don’t have no control/ we’re under control]

2+2=5

where i end and you begin

there there

myxomatosis

a wolf at the door

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