A importância de bons personagens

Dizer que os personagens são a alma da história é o mesmo que afundar em um oceano de obviedade. Com raras exceções, um livro não é nada sem figuras interessantes. Qual é a graça de ler sem se apegar àquelas criaturas que você adoraria ter em carne e osso na sua vida? E o mesmo acontece com os filmes e peças: vai te desanimando de tal forma a busca por motivos para segurar a atenção torna-se inevitável – um recurso bem mais complicado no caso da literatura, diga-se de passagem. Embora ilustre com um exemplo positivo, o mesmo acontece com personagens repugnantes. Você vai ficar curioso e se empenhar no entendimento daquela mente insana.

Dois trabalhos me interessaram, na mesma época, pela primazia desse aspecto. Barba Ensopada de Sangue, romance de Daniel Galera lançado no final do ano passado; e O Som ao Redor, longa de Kleber Mendonça Filho que entrou no circuito nacional pouco depois do lançamento do livro de Galera.

Lembrando que não, um não tem nada a ver com o outro. Eles coincidiram, por um acaso, com o cuidado de seus criadores ao construir os condutores das histórias.

Se vocês procurarem qualquer coisa sobre O Som ao Redor, vão dar de cara com diversos críticos exaltando o incômodo provocado pela projeção. Discordo e sustento uma opinião contrária – é um filme pra você se sentir plenamente em casa. Ele não quer te mostrar o lado podre do ser humano, mas sim o lado verdadeiro, sem escrúpulos e sem pompa. Para você se sentir bem consigo mesmo por fazer coisas que seus familiares nem desconfiam.

O longa é ambientado em um bairro de classe média do Recife. Acompanha os pormenores do cotidiano de um núcleo familiar e a lenta incisão de um grupo de seguranças na região. Tem de tudo: o mauricinho protegido da família que rouba o som dos carros, o boa pinta que é super preocupado com a condição da empregada – mas que acha graça e elogia quando o filho dela consegue uma vaga no turno da madrugada em um supermercado, a mãe de família que usa um aspirador de pó para abafar o cheiro da maconha enquanto fuma escondida compulsivamente, o segurança que tira proveito da confiança de um dos moradores e, com o porte da chave da casa do indivíduo, entra lá para transar com a namorada. Parece familiar? Um recorte do cotidiano de muitas cidades brasileiras – só que em cenários recifenses.

O conjunto de personagens ajuda a delinear todo um retrato da realidade nacional. Nós, um bando de hipócritas – seja na posição de vítima ou de quem impõe. Pessoas estagnadas que observam a mudança gritante na configuração das grandes cidades como se nada estivesse acontecendo. Kleber Mendonça Filho soube pulverizar as principais características da sociedade brasileira com precisão em seus personagens. Creio que o olhar de crítico o ajudou a maturar o perfil de cada um, entregando ao espectador figuras plenas em sua complexidade, que bem poderia existir fora dos limites da ficção.

Barba Ensopada de Sangue

Em Barba Ensopada de Sangue, nos deparamos com um sem-número de estranhos – gente que você pode esquecer sem culpa por não memorizar os nomes. O narrador te ajuda. Ele, inominado. Um professor de natação um tanto soturno perdido na cidade de Garopaba, em Santa Catarina. O moço acaba de perder o pai, que em um discurso estranho e inesperado diz-se enfadado com a vida. Pede ao filho para matar Beta, pois a cadela não suportaria o suicídio do dono.

Indignado com a ideia do pai – que não só manifesta o desejo de dar cabo à vida como o concretiza – agarra-se à velha história da “morte” de seu avô. Praticamente uma lenda urbana em Garopaba. Ele contraria a palavra do pai e parte para Santa Catarina com Beta para investigar o paradeiro de seu avô.

O dado peculiar do narrador é sua falha de memória. Devido a uma complicação durante o parto, ele não retém o rosto das pessoas – precisa decorar detalhes como tatuagens, cabelos, cicatrizes – tudo para auxiliá-lo da remontagem mental que não guarda registros faciais. Preparem-se para a presença torrencial de descrições – há uma tentativa de aproximar o leitor à experiência do personagem central. Esse recurso pode tornar a leitura um tanto cansativa em certos momentos e, ainda assim, se sobressai como um ótimo ponto de ambientação. Essa característica particular transforma a própria experiência do narrador-personagem. Sua apropriação do mundo faz com que a atenção se volte para aspectos que, em sua cobertura de banalidade, são de importância latente. As pessoas e os lugares ganham uma valorização que foge do que estamos acostumados a observar nos livros.

Desde Vidas Secas, de Graciliano Ramos, não me envolvia tanto com animais da ficção. Assim como Baleia, Beta é uma figura cativante tão importante quanto qualquer indivíduo do livro. Vai por mim, você vai sofrer com ela em um dado momento da obra. E se falo do valor dos bons personagens, Galera acertou em cheio. Concluí a leitura há mais ou menos dois meses e ainda tenho boa parte dessas criaturas vivas na minha memória. Ele não deixa pontos falhos ao engendrar o perfil de cada um. A riqueza construtiva faz com que esses personagens moldem o enredo sem o risco de confundir o leitor.

Nessa abundância de descrições a própria Garopaba ganha vida como se fosse um organismo tão complexo quanto seus habitantes. Para evitar que qualquer pormenor da cidade passasse despercebido, o autor morou no local durante um ano. O que mais chama atenção é o fascínio pela presença esporádica de baleias na região, provável resquício da experiência de Galera com Cachalote (HQ feita em parceria com Rafael Coutinho).

As lendas urbanas também são curiosas – parecem surreais, mas são bem plausíveis àqueles que já moraram em cidades do interior e estão acostumados com histórias sem pé nem cabeça.

A literatura serve como válvula de escape por possibilitar situações que cremos impossíveis. Daquelas coisas que você pode considerar incrível por acontecer somente na ficção – assim como pode tirar o leitor do sério de tão inverossímil. Mesmo perante o encanto pelo impossível, acabamos atraídos por realidades comuns ao nosso cotidiano. Aquela história que parece improvável e aos poucos se revela cheia de aspectos que poderiam acontecer a qualquer momento em sua vida.

É este o ponto forte e de confluência entre Barba Ensopada de Sangue e O Som ao Redor – personagens reais. Gente que nem se empenha em parecer perfeita por priorizarem sua humanidade – mesmo que ela esteja permeada pela maliciosidade. Figuras desgastadas pela própria existência.

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