through this new frame of mind

(ou: sobre ocasionalmente ser um vegetal)

A tarde se fragmenta em mim, espalhando seus pormenores ao longo de cada incongruência, sem ignorar relevos, depressões, planícies e todos os acidentes geográficos possíveis. Estou feito planta clamando por alimento em fotossíntese. Refestelada no sofá feito obra de marasmo – as pernas esticadas, entreabertas e pouco cobertas pelo vestido velho, branco e entremeado por linhas paralelas acinzentadas. Os pés desproporcionais alertam para o descuido que em mim soçobra e se agrava ao encarar os dedos das mãos, finos e inativos há muito tempo. Vejo neles toda uma carreira desperdiçada de pianista, aquela que abandonei no auge dos meus dez anos. Oras, tudo bem, ao menos parecem as mãos da minha falecida avó, lembrança doce aos entes queridos.

O sol se recusa a ser fonte. Não oferece nutrição alguma, apenas queima, desliza pelo meu tom desbotado e se materializa em suor. Afundo, transpiro ainda feito planta. Não há vento, o que limita minha mobilidade – eu, que nesse estado só tenho vida quando a brisa acha por bem tirar os meus cabelos do eixo de repouso. Algum disco pirata reúne mp3 de todos os discos do explosions in the sky, a execução dos instrumentos me dá o tom e se esforça para arrancar um zunido. Feito vegetal, reajo tímida às provocações sonoras.

Deixo que a tarde morra em mim, torpe, inconsciente e neutralizada paulatinamente pelas ondas de calor.

Minha existência liquefaz em meio aos agouros do dia. Ouço o caos da cidade, carros e gente insandecida, no movimento constante que adoraria desfrutar, mesmo com o possível incômodo.

Johnny Cash já falou sobre se ferir de propósito para ver se ainda sente alguma coisa. Ainda não sei dizer se é caso de excesso ou ausência, tenho consciência apenas da incompreensão e de uma constante entorpecência que parece anular minhas reações em qualquer instância. Posso arder em febre e ainda assim bloqueio meu corpo de qualquer rebuliço.

Há tanta segurança em permanecer neste isolamento, uma estranha liberdade das minhas próprias amarras. Chega a ser incompreensível àqueles que desconhecem o não-sentir.

Alguns encaram como frieza enquanto me vejo apenas como um ser inapto, despreparado às intempéries da vida e respondendo com apatia. Que me atirem todas as experiências por meio de canhões, que me estourem e perfurem a pele nessa tentativa maluca de me inserir no eixo, nesse apelo inverossímel por coesão de uma pessoa que há muito se desconectou da realidade sem planos de retorno.

Minha imagem no sofá poderia refletir o encantável tédio de telas antigas, mas as deformidades latentes correspondem a uma dessas artes contemporâneas que de tão esquisitas ninguém entende. Um retrato que me enoja por ser tão (obviamente) impregnado de mim. Daqueles vazios agudos meio cheios de tudo, como diria Leminski. Que você olha e questiona a graça, o apelo.

Estou a um nível Duchamp de compreensão. A mim, aos outros. Fazendo tanto sentido quanto um bidê assinado.

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