Fora do movimento da vida

“Como se eu estivesse fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota…”

[Retirado do conto “Dama da Noite”, de Caio Fernando Abreu]

galera observadora, estamos juntos. porque a gente não vê nada de errado em sentar numa escadaria e passar horas a fio com fones de ouvido imaginando videoclipes dirigidos por nós, grandes diretores, enquanto pescamos situações no ponto de ônibus, na lanchonete, no boteco, na banca da esquina. que resolve ir até o final da linha do metrô no domingo porque oras, você precisa ver gente vivendo sem ter que ser esmagada para isso. de nós, que madrugamos no café só pelo prazer de sentar com a bebida quente ao lado e colocar aquela resenha velha em dia.

e também aqueles que acham legal ir ao ibirapuera bater perna sozinha até não aguentar mais as próprias pernas, sentar, e ver aquelas famílias tentando o equilíbrio nos patins, no skate, na bicicleta. ah, sem contar aquele bando de cachorro bonito que te deixa meio doente de vontade de adotar um bicho, um pobre coitado que morreria de fome e sede na primeira semana porque você não dá conta nem de você mesma, imagine uma criatura indefesa que depende de você.

estamos juntos até mesmo naquela clássica ida ao cinema. o ingresso na mão e a coordenação motora que mandou abraços para equilibrar todo o resto, e aí você senta naquele sofá convidativo e fica contemplando, meio ansiosa, meio agoniada por estar sozinha mas ao mesmo tempo aliviada, se é que o paradoxo cabe. você sabe que não vai aparecer ninguém, babaca, não adianta se iludir. até melhor, não é preciso forçar uma interação que pode estragar sua experiência com o filme. e então você abstrai, mas passa a remoer a sua vergonha ao entregar o ingresso e o cobrador te receber com um riso sarcástico de “parabéns pelo forever alonismo, otária”.

Sartre lembra que você existe e diz algo do tipo “O inferno são os outros”, não é mesmo? e se acomoda na poltrona escolhida (rezando pra ninguém sentar ao seu lado) e esquece qualquer desconforto, agradece por ter te tirado de casa para executar o seu melhor desempenho de observadora. um dos seus favoritos.

também estou com essa gente que pouca liga pro olhar de reconhecimento dos livreiros quando você senta numa das poltronas e passa boas duas horas tentando se ajeitar com um livro que nem sempre é pesado. e ainda assim, insistimos no mesmo lugar, a mesma livraria, a mesma poltrona. porque é cômodo, e pode até não ser o sofá da sua casa, mas você se sente como se lá estivesse porque está rodeada pelos seus amigos de brochura.

acontece de sairmos da zona de conforto para passeios ocasionais na tal roda-gigante da vida. você pode até ser inepto à essa modalidade, mas é esperto o suficiente para descobrir a senha de entrada. estando lá, é preciso entender o funcionamento, decodificar os diálogos, tentar se encaixar, fazer o que pode para sentir que faz parte daquele contexto. te vale como experiência, como tudo nessa existência.

estamos sozinhos e isso nos derruba de vez em quando. porque o ato de observar pode causar danos ao seu emocional, mas tudo bem, não é grave. talvez rolem algumas lágrimas, mecanismo comum para provar que tá tudo em ordem. com falhas, mas está. e uma hora elas cessam, a respiração volta ao ritmo normal e você volta a ser a boa e velha observadora.

pois no fundo não nos incomodamos em ver o desenrolar das coisas para os outros quando tudo parece empacado nas nossas vida. porque é verdade que a solidão não é uma coisa ruim. existe essa marca de desagrado, amargura de gente sofrida e incapaz de dançar conforme a música. saibam pois que existe um lado glorioso nisso tudo – o da autosuficiência. é preciso ter estômago e uma força que você não acredita ser capaz de sustentar. e no fim das contas você resiste com tanta braveza que quase não se lembra de todo o empenho para construir essa fortaleza interna.

até dá vontade de dar uma volta na roda, mas preferimos ficar fora do movimento da vida. deixa ela acontecer logo ali, enquanto tudo se materializa naturalmente em arte. alguém vai escrever, fotografar, filmar tudo aquilo e só você, como ninguém, terá tato para apreciar.

[Imogen Heap – Let Go]

Anúncios

2 comentários sobre “Fora do movimento da vida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s