Morte Súbita, de J.K. Rowling

“You must accept the reality of other people. You think that reality is up for negotiation, that we think it’s whatever you say it is. You must accept that we are as real as you are; you must accept that you are not God.”

Por Thais Sawada*

Sou daquelas que cresceu com Harry Potter. Como muitos integrantes da chamada Geração Y, entrei no universo de Hogwarts antes dos meus 11 anos e devorava os livros à medida em que eles eram lançados. Devo dizer que o vício persiste até hoje. Portanto, quando J.K. Rowling anunciou que escreveria uma obra voltada para o público adulto, me animei imediatamente. Afinal, em Morte Súbita poderia conhecer suas habilidades com as palavras no mundo dos trouxas.

Bem longe de toda a magia e feitiços de Harry, o cenário agora é uma pequena cidade chamada Pagford. Daquelas que possui tão poucos habitantes que todos se conhecem – quer se gostem ou não. No caso, é mais provável que todos se odeiem. Entretanto, existe uma figura que parece contar com a simpatia da grande maioria: Barry Fairbrother, membro do Conselho da cidade. Quando ele falece repentinamente, o seu cargo fica em aberto e tem início a corrida pela vaga. Disputa de poder, muitas fofocas e desejos de que os concorrentes sejam destroçados. É assim que as coisas funcionam.

Mas além de Pagford, também existe a cidade vizinha, Yarvill. E, entre elas, uma área denominada Fields, em que moram pessoas pobres – que são vistas como problemas para os mais afortunados. As duas localidades, portanto, tentam jogar a responsabilidade uma para a outra. É principalmente esse assunto que divide os candidatos à vaga do Conselho: há aqueles que pretendem fazer de tudo para que Fields faça parte de Yarvill e aqueles que acreditam que os seus moradores devam ser integrados à sociedade de Pagford. O tema da responsabilidade social é bastante discutido no livro, aliás.

Nessa confusão toda, Barry funciona como um personagem que, mesmo não estando ali, move a trama. Ele mantém-se presente mesmo estando ausente. A história, no entanto, é contada a partir da visão dos moradores de Pagford, que são vários. No núcleo adulto, temos Howard e Shirley Mollison, os primeiros a lutar para que Fields torne-se parte de Yarvill. Compartilhando o sentimento, temos o filho do casal, Miles. Já sua esposa, Samantha, não liga para o assunto. Para ela, o que importa mais são os seus planos da juventude, que agora veem-se frustrados.

Simon Price, casado com Ruth, é outro na disputa pela vaga. Sempre recluso em sua casa, não é muito popular entre os outros cidadãos. Que o diga seus filhos, que precisam suportar seus ataques de fúria. Já Colin Wall, vice-diretor da escola de Pagford, precisa lidar com seus demônios. Para isso, tem o apoio da mulher, Tessa – orientadora na mesma instituição, sempre disposta a ajudar os alunos problemáticos. Sua melhor amiga é a médica e também membro do Conselho, Parminder Jawanda.

Em meio a tudo isso, Mary Fairbrother sofre com a morte do marido e Gavin Hughes se arrepende do relacionamento com Kay Bawden, assistente social que fica encarregada da família de Terri Weedon – desempregada, drogada e perdida na vida, que deveria cuidar de seus filhos, Robbie e Krystal, mas que acaba sendo cuidada pela primogênita. A maioria dos adultos é arrogante e desagradável. Não é fácil desenvolver simpatia por eles – salvo algumas poucas exceções.

É com os personagens adolescentes que Morte Súbita ganha força: Bola, Andrew, Gaia, Sukhvinder e Krystal. Esta última, personagem que liga vários dos núcleos presentes no livro. Rowling consegue realmente tornar a história interessante quando se aventura no mundo teen. Entretanto, não se engane: os jovens não são fáceis de se gostar como os Weasley. Eles são muitas vezes rancorosos e egocêntricos. Mas à medida que os conhecemos melhor e compreendemos os seus pensamentos, medos, inseguranças e segredos, entendemos também seus modos de agir. As dúvidas e necessidades de todo adolescente estão representados ali.

Os personagens, em geral, são bem construídos. Existe uma profundidade com relação às suas personalidades – são bastante tridimensionais. Entretanto, os defeitos tendem a se sobressair, fazendo com que tudo em Pagford tenha um clima um tanto pessimista. Crueldade, miséria e desespero são comuns. Assim como toda a violência, bullying, sexo e drogas.

Morte Súbita é um daqueles livros que não se pode julgar pelas primeiras páginas e capítulos. A narrativa começa devagar, maçante até, enquanto Rowling apresenta os moradores da cidade. Vamos de casa em casa e presenciamos as diferentes reações acerca da morte de Barry. Posteriormente, a trama engrena e passa envolver o leitor. Pode são ser nenhum Harry Potter, mas Morte Súbita mostra que J.K. Rowling tem muito talento fora do mundo mágico, ao fazer um retrato de um pedaço da vida de uma cidade. Ela sabe contar uma história que tem seus momentos de humor, seus flashes de esperança e afeto – mesmo que no final tudo não estivesse exatemente bem.

ROWLING, J.K. Morte Súbita. Editora Nova Fronteira, 2012. Tradução: Maria Helena Rouanet e Izabel Aleixo. 512 págs. Preço sugerido: R$49,90.

*Na última quarta-feira do mês a Thais vai comentar suas impressões sobre algum título literário por aqui :) Acompanhem!

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