Da música que precisa ser vista

O dia 22 de janeiro marca um fato triste para os fãs de um grande ator australiano: Heath Ledger. Há 5 anos ele nos deixou devido ao uso excedente de reméditos controlados. Para relembrar passagens memoráveis de Ledger no cinema, eu, o Rodrigo Oliveira e a Thais Sawada fizemos um especial n’O Bolchevique Analógico com resenhas de alguns filmes nos quais ele atuou. Adorei escrever sobre Não Estou Lá, um de seus últimos trabalhos, por isso resolvi compartilhar o texto com vocês por aqui também.

O especial ainda não acabou – amanhã o Rodrigo sobe o último texto, sobre O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus. Voltem lá para conferir!

Aproveitei para listar todas as resenhas no final do post, para facilitar caso queiram conferir todos os textos.

Não Estou Lá (I’m Not There, 2007, direção de Todd Haynes)

“I accept chaos. I don’t know whether it accepts me”
[Eu aceito o caos. Só não sei se ele me aceita]

imnotthere1Por Lidyanne Aquino

Seis atores, seis personagens – uma única pessoa. O caráter multifacetado de Bob Dylan deu abertura a uma abordagem interessante sobre a carreira do músico. A leitura de Todd Haynes em Não Estou Lá é entregue de forma mastigada, desorganizada, em fragmentos que nos convidam a investigar melhor a criatura e sua personalidade peculiar. Para tanto, agregou artistas bem diferentes entre si – Ben Whishaw, Cate Blanchett, Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e o jovem Marcus Carl Franklin. A escolha foi proposital. A postura e os nomes são distintos, mas a essência é a mesma. Um amálgama de Dylan. Peças espalhadas com o propósito de serem reunidas na mente de quem assiste. E não pensem em algo organizado, sequencial. O plano é montar o músico de forma disforme, confusa. Uma interrogação mais que bem colocada, se é que vocês querem saber.

É válido lembrar que esse não foi o primeiro flerte de Haynes com a música. Em Velvet Goldmine, ele discorre sobre o Movimento Glam com base na trajetória de artistas como David Bowie e Iggy Pop. Diferente do trabalho anterior, desta vez ele teve autorização do próprio Dylan para reproduzir suas composições no longa. E para obter o resultado pretendido, o diretor valeu-se de todo e qualquer material sobre a vida do músico. Há referências de entrevistas, participações em filmes e documentários como No Direction Home, de Martin Scorsese.

Entre idas e vindas dos seis atores, o primeiro trecho prolongado é dedicado a um garoto com aproximadamente 11 anos de idade que se apresenta como Woody Guthrie. Marcus Carl Franklin expõe o perfil do jovem prodígio, encarando discursos de uma alma vivida. Ele canta, toca, e fala com uma segurança impressionante para a sua faixa etária. Ele representa o lado autodidata de Dylan, que já compunha com desenvoltura apesar da pouca idade. Franklin marca bem a ingenuidade infantil de quem ainda não sabia qual rumo tomar, que fazia da música uma via de escape para falar daquilo que não poderia ser apenas escrito, mas precisava de som para ser compreendido.

É nessa fase que ele ouve um conselho para viver seu próprio tempo e cantar sobre sua época. Uma sequência que viria a despertar o interesse de Joann Sfar mais tarde na cine-biografia de Serge Gainsbourg, quando Woody é engolido por uma baleia. Em meio a esse insight, somos lançados a um novo momento do músico – agora Jack Rollings, que ganha vida com Christian Bale. O ator se desdobra em dois lados de Dylan. O primeiro, ativista, atende à sugestão de cantar seu tempo ganhando o estigma de um intérprete de canções de protesto. É quando Dylan dá seus primeiros passos para tornar-se um expoente da música folk. A cantora Alice Fabian representa Joan Baez, uma presença marcante na vida de Dylan durante essa fase, e é interpretada por Julianne Moore, que fala sobre o período como se estivesse em um documentário sobre a vida do amigo Rollings. Bale também dá vida ao Pastor John, uma fase de transição de Dylan – quando o músico se converte ao cristianismo e dedica-se a composições do gênero gospel, entre 1979 e 1981.

Chegamos a Heath Ledger, com pinta de conquistador na pele do ator Robbie Clarke. Em Não Estou Lá, o personagem é protagonista da biografia cinematográfica de Jack Rollings (nota-se que Haynes não tem medidas para explorar a metalinguagem). Ele exibe as incursões de Bob Dylan – fracassadas, diga-se de passagem – no cinema. Sei que é suspeito glorificar o desempenho de Ledger em um especial dedicado ao ator, mas seria injusto ignorar a performance dele apesar da curta aparição. Afinal, ele precisou disputar espaço nas pouco mais de duas horas de projeção com outros cinco grandes atores. Mas ele aceitou o desafio e fez questão de nos deixar uma participação marcante. É fato – ele incorpora trejeitos de galã que são mais dignos de ator do que do próprio Dylan. Ainda assim, Ledger apresenta o sotaque e os cacoetes do músico com desenvoltura. Ele também é responsável pelo lado caseiro do artista. No longa, são exibidos os altos e baixos do relacionamento de Robbie e Claire (Charlotte Gainsbourg).

Ben Whishaw entra como um prefácio pulverizado ao longo da projeção. Ele solta divagações que podem ser interpretadas como digressões da carreira de Dylan. Para tanto, Haynes atribui ao ator o papel de Arthur Rimbaud, na tentativa de exibir a faceta poeta de Dylan. Responsável, também, por uma das citações mais belas do filme:

“A poem is like a naked person [even the ghost was more than one person], but a song is something that walks by itself”

[O poema é como uma pessoa nua – mesmo o fantasma era mais que uma pessoa – mas a canção é algo que caminha por conta]

Quem ouviu qualquer rumor sobre Não Estou Lá sabe que Cate Blanchett é responsável pela melhor atuação do longa. Ela assumiu a responsabilidade de viver um dos momentos mais controversos da carreira de Dylan e de exibir a maneira indiferente e por vezes sarcástica com a qual o músico lidava com a crítica. Jude Quinn encara a rejeição dos fãs ao abrir mão do folk para acrescentar a guitarra elétrica em suas composições. Ela também protagoniza duas rápidas passagens que mostram o contato de Dylan com os Beatles e com o poeta Allen Ginsberg. Destaque também para a rápida participação de Michelle Williams, que entra em cena com Jude no papel de Coco Rivington, uma representação das “Twiggys” daquele período.

Richard Gere fecha o ciclo no papel de Billy, uma figura facilmente esquecível. Em cena, ele mostra um Dylan recluso, que se isola na pequena cidade de Riddle. Apesar da atuação contida, Billy representa períodos importantes na vida do músico. Mostra o sucesso de Knockin’ on Heaven’s Door; o primeiro sumiço de Dylan após o acidente de moto, em 1967; e fecha um ciclo conectando o segmento Gere com o de Blanchett, quando Billy encontra o jornalista Sr. Jones (Pat Garret), com quem Jude bate de frente em outros momentos do filme.

Para colocar coesão no parágrafo que abre a resenha, explico a genialidade de Haynes. O ser humano, como um todo, é uma criatura confusa e incompreensível. No caso de um artista como Bob Dylan, qualquer tentativa de traçar uma biografia cinematográfica não faria jus à trajetória dele. Tentar explicar e recontar da forma mais prática tiraria toda a complexidade do indivíduo, transformando-o em um mais do mesmo. Ele se ocupa em enaltecer também a música que precisa ser vista e compreendida em sua multiplicidade, e não apenas como uma mera projeção sonora.

Heath Ledger
04/04/1979 – 22/01/2008

Texto de abertura

10 coisas que eu odeio em você

Coração de cavaleiro

Honra e coragem – As quatro plumas

Os irmãos Grimm

Os reis de Dogtown

O segredo de Brokeback Mountain

Candy

Não estou lá

Batman – O cavaleiro das trevas

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