Das vantagens de ser invisível

É como ler O Apanhador no Campo de Centeio depois dos 20. A probabilidade de chegar à última página sem entender o porquê de tantos leitores fissurados é bem alta. Não sei se passa como justificativa para um guilty pleasure, ou se é apenas TOC de leitor. Fato é que sempre teremos aquele livro “amaldiçoado”, incapaz de circular sem um estigma. As Vantagens de Ser Invisível (Perks of Being a Wallflower) guarda um pouco disso. Pouco popular, se comparado com o livro de Salinger; ou, para citar um nome ainda mais conhecido, com a saga Harry Potter.

Embora distintos, guardam muitas semelhanças entre si. Não ouso equipará-los pelo “valor literário”. Até porque Stephen Chbosky chegou mais tarde e certamente surrupiou algumas ideias das outras obras citadas. Na minha humilde opinião, não é uma cópia escancarada. Pelo contrário – ele soube como tirar boas características desses trabalhos para criar uma história com marcas próprias, mesmo que a ideia não seja original.

Quando o livro chegou até mim, eu e o personagem principal passávamos pela mesma (chata) fase de transição para o ensino médio. A identificação foi natural – como tantos adolescentes, também encarava conflitos existenciais bem característicos. Charlie, personagem central, had it a lot worse. Mesmo com as nossas semelhanças, desde a primeira página tive a convicção de que teria muito a aprender com ele. O que de fato aconteceu.

A história se passa na década de 1980. Como válvula de escape para a solidão, Charlie contava com companhias de papel e de fita. Candance, sua irmã, é completamente desapegada dos presentes que ganha do namorado. Acaba doando-as para o irmão mais novo, que aos poucos constroi uma midiateca de fitas k7. Desta forma, toma conhecimentos de preciosidades da música como os Smiths (com a marcante Asleep), Beatles, Fleetwood Mac e XTC – só para citar alguns nomes.

Interessado pela literatura, segunda companheira fiel, Charlie tem todo um potencial para traça. E recebe o maior apoio do novo professor de Língua Inglesa que, ao notar o talento do aluno, solicita algumas leituras complementares. E eu sei, até agora não falei grandes coisas sobre o enredo, mas dei todas essas voltas para explicar o grande trunfo de Chbosky.

A lista progride. Começa com um despretensioso Pinóquio, seguido pelo clássico norte-americano O Grande Gatsby, passando por títulos como On the Road, de Jack Kerouac e Walden, de Thoreau. E não são meras citações, possíveis referências a obras que marcaram a vida do autor. A cada leitura, Bill, o tal professor, pede um relatório. Com o desenrolar da história, Charlie não só adquire reconhecimento do mestre pela evolução textual, como aprimora a escrita.

Também narrador, ele escreve várias cartas para um destinatário anônimo – sim, mais um parceiro “de papel”. Ele não o conhece, não faz questão de fazê-lo e muito menos quer ser descoberto. Cada nova leitura casa com algum acontecimento da vida do garoto, concomitante à escrita, que progride gradativamente.

De 2005 para cá ele ficou assim, pobrezinho.

De 2005 para cá ele ficou assim, pobrezinho

Essa criatura ficcional enraizou em mim e alimentou convicções irreais. Por um bom tempo acreditei nessa possibilidade de evolução literária e segui uma lista de obras semelhantes a dele – não respeitada à risca porque sempre tinha um autor que me prendia tanto a ponto de urgir a necessidade de procurar outros trabalhos de mesma autoria. Depois de ler toda a saga Harry Potter coloquei na cabeça que logo menos encontraria pessoas tão freaks quanto eu E dispostas a agregar mais um elemento ao grupo. Só porque o personagem central conquistou duas grandes amizades e isso lhe bastou. Mesmo tomada pela angústia juvenil, tinha a convicção de que não tardaria para partilhar esses anseios com gente que os compreendessem com naturalidade e sem ficar caçando rótulo para tudo. Fosse por encarar a mesma circunstância, fosse por já ter vivido e estar disposto a ensinar o que aprendeu.

Acontece que eu nunca escrevi cartas para desconhecidos. Meu ritmo de leitura nunca acompanhou o da escrita – o atropelou, na verdade. Tive professores inspiradores e que me motivaram o quanto puderam, mas eu provavelmente não correspondi às expectativas. Minhas músicas ficaram guardadas em alguma instância, com ocasionais intervenções que nunca surtiram um efeito mais denso que um curtir ou retweet. E vamos combinar, a vida é bem mais amarga que todas essas instâncias de irrealidade, o que logo fez com que eu largasse de vez a “ilusão potteriana” e assumisse o papel como melhor amigo, fosse com letras impressas ou em um chamativo branco que implorava para ser manchado.

Se no livro há toda uma valorização à escrita e ao poder da literatura na vida de uma criatura introspectiva, na adaptação o diretor (também autor da obra) preferiu glorificar a música. Nesse ponto, a produção cresce e adquire um valor estimado. Não sei se a tradução do livro está boa, mas caso o longa tenha despertado alguma curiosidade, recomendo a leitura. De preferência no original.

O filme veio mais como um convite para dar uma chance ao livro. O diretor de fato preferiu seguir uma linha mais superficial, produziu para um público mais conservador. Toda a fase de descoberta do Charlie tornou-se um mais do mesmo recorrente em longas adolescentes. Tem lá os seus momentos de glória e um elenco lindo, porém, me desculpem, é raso.

Enfim, se até hoje vejo Perks of being a wallflower com tanto apreço, não foi só por ter servido como porta de entrada para incentivar minhas buscas por música e literatura, mas também por ter me amparado em um momento tão nebuloso. Minha base para conhecer a literatura norte-americana estava ali. E não, eu ainda não conhecia Alta Fidelidade, de Nick Hornby, e a cultura das mixtapes, que para mim também nasceu com Perks.

Com exceção das leituras obrigatórias na escola e na faculdade, sempre escolho minhas leituras meio ao acaso, depois de vasculhar estantes pela cidade ou ler uma resenha. E num esquema meio planta, eles crescem em mim desde a primeira página, seja para me consumir de desgosto ou para render um fruto de inspiração ou de mera admiração.

Sobre o envolvimento com a leitura (nível: extremo).

Sobre o nível de envolvimento com a leitura (nível: extremo)

Sempre digo que mesmo com todo o discernimento do mundo, por vezes é difícil distanciar o lado crítico do envolvimento pessoal. Justo por ser algo tão subjetivo, é quase impossível compreender o que se passa com cada um ao ter contato com uma obra. Por isso que um único trabalho pode causar reações tão adversas – você nunca sabe a que ponto e em quantas instâncias um livro pode tocar um indivíduo.

Para uma geração que encaminhava para um rumo tão vazio, Perks consegue atingir uma média que ultrapassa a função de reunir citações dignas de Tumblr. Até porque se o tumblr existia quando o livro foi lançado, pouca gente conhecia. E a minha geração cresceu carente de algo ao nível de O Apanhador no Campo de Centeio para as gerações que a antecederam.

Com esse livro, Chbosky me ensinou um pouco mais sobre a espera e a ver vantagens em ser inquieta em silêncio. Vai ver as coisas não correram como o planejado porque eu não estou preparada psicologicamente para lidar com isso, talvez não seja para ser assim, enfim. No fim das contas, um pouco de auto-suficiência não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário.

”I don’t know how much longer I can keep going without a friend. I used to be able to do it very easily, but that was before I knew what having a friend was like. It’s much easier not to know things sometimes. And to have French fries with your mom be enough. (…) But because things change. And friends leave. And life doesn’t stop for anybody”

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9 comentários sobre “Das vantagens de ser invisível

  1. Ainda não li o livro, mas depois de assistir o filme fiquei curioso.
    Espero que seja bom. Confesso que não curti muito o filme… esperava mais, muito mais! Até grande parte do filme fiquei pensando: “Então, tá… o que o diferencia de outros filmes sobre adolescentes?”. Se não fosse pelo fato do protagonista ter sido abusado pela sua tia, para mim, a história seria só mais uma… Mais do mesmo!

    • Se puder, leia o original. É tranquilo, li quando estava no inglês intermediário e não tive dificuldades. Vi muita gente reclamando da tradução. E toda essa evolução da escrita do Charlie depende de uma boa tradução…

      Enfim, o filme deixou muito a desejar. Eu gosto, mas considero médio pois ele fica todo na superfície. Mesmo o problema dele com a tia não foi bem contextualizado no filme. Mas no quesito trilha sonora eles acertaram, conseguiu me passar toda a sensação de descoberta da música naqueles tempos. Espero que você dê uma chance ao livro!

  2. Lidy, acabei de ler o livro e assistir ao filme, meses depois da sua dica haha. então vim procurar seu texto.

    em mim, a obra mexeu de um jeito completamente diferente. e muito mais o filme do que o livro… acho que nas telas a minha identificação com o personagem foi maior. escrevendo, acho que as diferenças saltaram mais aos meus olhos. no filme, eu me vi claramente no personagem – eu da escola e o da faculdade, tao diferentes, tao parecidos… algumas cenas foram como um reflexo. nada como a forças das imagens, de uma trilha sonora e uma boa edição, não é mesmo?

    ou talvez, por ter lido o livro todo e no mesmo dia que terminei, ido ver o filme, rever as situações tenha caido com o peso em dobro. só sei que terminei o livro com “okk, livro fofo” e terminei o filme com um “uau. estou me sentindo diferente e não sei se é bom ou ruim”.

    conversaremos sobre literatura americana quando vc voltar de Paris!

    besos

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