Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer

“Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you…”

Há livros cheios de som e fúria. Embora estejam presos ao papel, reproduzem os cinco sentidos. Provocam ruídos por vezes agudos demais aos ouvidos; é possível tocar cada personagem, visualizar as cores emitidas pelas palavras e sentir os cheiros exalados por cada passar de páginas. O argentino Eduardo Gudiño Kieffer compreendia bem tudo isso ao redigir seu primeiro romance, Para te comer melhor. A provocação é suficiente para tocar a curiosidade dos possíveis leitores. Eu, como era de se esperar, acabei me rendendo sem resistência. Bastou encontrá-lo na biblioteca (com um empurrão da Melissa Panteliou, que me indicou por tabela ao falar sobre a obra).

Sebastián tem 25 anos e mora em Buenos Aires. Partidário da incompreensão e do vazio existencial de muitos jovens, ele opta pelo suicídio como via de escape mais viável aos seus anseios. O leitor passa a conhecê-lo melhor pelos capítulos escritos em primeira pessoa e pelas anotações de seus cadernos. Em complemento, tomamos contato com outros personagens que de certa forma ajudam a unir as pontas para entender o protagonista por completo.

Figuras, por sinal, deveras caricatas, com apelo forte, e que não custam a conquistar o leitor. Cada capítulo leva o nome dos personagens envolvidos na ação. Flor de Irupé, que inicia a obra após o prólogo que pode servir de epílogo, é abarcada pela simplicidade e pela inocência. A moça abandona Alto Verde e parte à Buenos Aires “dos rios asfaltados” – pois sua cidade está em estado de calamidade devido às enchentes – com o canário Gardel nos braços e a esperança de cantar em uma rádio local.

Ana, uma amiga acidental que ele conhece em uma festa qualquer, partilha uma característica comum a todos nesta obra – a fragilidade. Esse aspecto, para ela, pende para o amor não correspondido por Sebastián e pelo coração amolecido ao encontrar Flor de Irupé na Plaza Italia e levá-la, sem pensar duas vezes, para casa. Robbie parece o mais seguro de si no grupo de amigos, embora também apresente alguns traços de insegurança. Ele parece insignificante no início, mas ganha força com o passar das páginas conquistando um posto importante na vida de uma personagem em especial.

Não posso deixar de citar as outras vozes de Sebastián. Merdalim e Merdalhão habitam o subconsciente estabelecendo o dualismo corriqueiro entre certo e errado, incrustados em toda grande decisão tomada pelo protagonista. Com Cecília, uma “voz feminina”, dialoga sobre questões existenciais e garante algumas das melhores passagens do livro. Como se apenas essa voz compreendesse sua angústia.

O triunfo da linguagem

A sinestesia está na riqueza das descrições de Kieffer, que praticamente coloca um filme em nossas cabeças e torna a escrita rica e vívida. O autor me parece apaixonado pela linguagem, e faz questão de demonstrar seu amor a cada passagem. A obra é metalinguística e em diversos momentos frisa as amplas possibilidades da escrita. Para tanto, vale-se das tempestades mentais de Sebastián, que também cita diversos autores que ecoam como fontes de inspiração.

O ponto alto de Para te comer melhor é exatamente esse: os jogos com a linguagem são envolventes e respondem a uma pergunta recorrente feita aos leitores: por que vocês gostam tanto de livros? Respondo pegando o primeiro romance de Kieffer na íntegra como resposta. É justo por esse trabalho tão cuidadoso de certos autores ao lidar com a língua. Foi a primeira característica a prender minha atenção, fomentada por um enredo que trata de um tema recorrente e nem assim falha na tarefa de conquistar potenciais leitores. Quem está habituado à escrita de outro autor argentino, Julio Cortázar, sentirá-se em território seguro com esse trabalho de Kieffer.

Quando eu achava que não tinha mais motivos para gostar tanto da obra, ganhei um guia pelas ruas de Buenos Aires. Pois sim, há também uma crise de patriotismo evidente como pano de fundo – por vezes os personagens protestam certos aspectos culturais, por vezes expressam o deslumbramento incontido por tudo o que a cidade tem a oferecer. Saí marcando cada nome de ruas, avenidas, lojas e cafés para checar se são invenções do autor ou se existem mesmo e continuam intactos na capital da Argentina.

É uma pena que pouco se fale sobre a obra e ela não tem o prestígio merecido no Brasil. Já senti um certo estranhamento com o título, visto sabe se lá por quê com maus olhos, toda vez que alguém me perguntava sobre a leitura. Digo apenas uma coisa: aceitem a provocação.

KIEFFER, Eduardo Gudiño. Para te Comer Melhor. Editora Alfa-Omega, 1976. Tradução: Hersch W. Basbaum. 240 págs. Preço sugerido: R$59,00 (Dica: deem uma olhada no site da Estante Virtual caso queiram comprar. Há várias opções de edições usadas por preços acessíveis).

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3 comentários sobre “Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer

  1. ola, descobri esse livro por acaso em um sebo e fiquei apaixonado. não sou muito bom com as palavras igual você, mais achei todos os personagens extraordinários e humanos.

    • Sim, foi difícil encontrar mais informações sobre o livro antes mesmo de adquiri-lo. Mesmo sobre o autor, pouco se encontra sobre ele na rede. E é uma pena que a obra não seja tão conhecida no Brasil, pois é incrível. Digno de ser chamado de clássico.

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