Feito tatuagem

Para cada fase da vida, existe uma trilha sonora específica. A música que marcou o primeiro beijo, a conquista de um emprego, uma decepção amorosa. São as notas musicais as responsáveis por deslocar a aparente banalidade do momento por meio de uma melodia. Aquela, que a cada segundo tocado trás de volta a sensação boa um dia sentida, ou relembra paulatinamente a dor de um momento. Há também, certamente, a música-tema, a faixa principal norteadora de uma vida inteira.

Eduardo Coutinho dá voz – literalmente – a pessoas que tenham a história desta música decisiva para contar em seu novo filme, “As Canções”. No formato usual de documentário, cada pessoa canta e pontua o acontecimento em um teatro, posicionada a frente de uma cortina negra, sentados em uma cadeira da mesma cor. De certa forma, a cor escolhida parece refletir a temática conduzida pelo diretor. A majoritária parte das personagens relata histórias de dor – em especial, de desilusões amorosas. O fundo negro sugere justamente o clima de luto, de fase inacabada que deixou para trás apenas a memória ilustrada pela canção.

Ao longo de dois meses, a equipe de Eduardo Coutinho percorreu as ruas do Rio de Janeiro perguntando “Alguma música já marcou sua vida? Cante e conte sua história”. Foram 237 entrevistados, dos quais 18 foram escolhidos por Eduardo Coutinho para se aprofundarem nas histórias por trás da música de suas vidas.

A presença de Roberto Carlos foi unânime. Mas há também composições de Chico Buarque, Jorge Benjor e Noel Rosa. Os 18 depoimentos refletem a diversidade característica da música brasileira. As canções percorrem todas as variações do gênero – quiçá venha a ser uma reflexão sobre a cultura brasileira propriamente dita. Pois não existe um “acordo” – a montagem não segue uma linha única.

A captação é praticamente a mesma, sempre no mesmo cenário. Um contraste com as personalidades apresentadas – indivíduos plenamente diferentes e com histórias igualmente distintas a contar. Há relatos sutis de histórias de amor que não deram certo. Embora não haja nada de extraordinário, é interessante notar a interpretação de cada um para a situação.

Há uma senhora, por exemplo, que mal consegue cantar pois se emociona com facilidade. O mesmo acontece com um senhor, que se emociona ao lembrar uma canção de sua infância que a mãe – ainda viva – sempre cantava. O único personagem jovem a figurar no documentário parece lidar bem com a emoção ao apresentar, em um misto de saudade e lamento, uma composição própria em homenagem ao pai que faleceu.

Uma estrangeira, após uma temporada no Brasil, conta que se apaixonou pelo professor de capoeira. Quando foi abandonada, não deixou-se levar pela dor – recuperou-se com a ajuda de um samba. Outra mulher, pelo contrário, vê-se sem perspectivas. Desabafa ao dizer que “Retrato em Branco e Preto”, de Tom Jobim e Chico Buarque é a música de sua vida. Para ela, após o fim do relacionamento mais intenso por ela vivido, qualquer futuro pretendente apareceria para ela com o estigma de uma das frases da canção: “Já conheço os passos dessa estrada/ Sei que não vai dar em nada”.

Um homem diz-se portador de um “detector de vacilo”, que o impede de causar decepções amorosas por meio de traições. Há figuras bem humoradas, por sinal – como um senhor, que ao finalizar sua participação levanta-se e pergunta “e agora, tenho que sair tristemente ou alegremente?”.

Esta pode não ser a obra mais primorosa de Eduardo Coutinho. Mas é, certamente, uma homenagem bela à importância da música em nossas vidas – os ritmos e composições que ficam em nós – para fechar o comentário com uma referência musical – “feito tatuagem”.

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2 comentários sobre “Feito tatuagem

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