O refúgio

“Olha, com este título, eu jamais teria interesse em ler este livro”. Começou assim. Até então, poucas pessoas preenchiam o pequeno espaço da sala. Trocávamos algumas ideias gerais enquanto o resto do grupo não chegava. Consideraria a discussão um tanto atípico, para falar a verdade. Não houve padrão, sequência, nem mesmo o apanhado geral que costumamos realizar nos primeiros minutos. Quando me dei conta, já com o grupo completo, estávamos discutindo diversos pontos do livro. O assunto não acabava, e parecíamos desesperados para dar continuidade à discussão.

O encanto era tanto que mal cabia em 60 minutos. Mesmo ao apontar os (quase ausentes) aspectos negativos da obra, havia algo que prendia nossa atenção, sempre permeada por um “quê” de beleza. Realizávamos ali, inconscientemente, uma declaração de amor piegas e alucinada pela literatura.

Não faz muito tempo. Deu até vontade de voltar atrás na última segunda-feira de setembro. Havia certo receio – pensava que chegaria ali para presenciar uma conversa quadrada sobre um ótimo livro. Saí com uma percepção ampla de Desonra, de J. M. Coetzee. E ainda tive a honra de presenciar uma conferência com Ricardo Piglia em seguida, uma consequência muito válida da minha presença no grupo naquele dia.

Acreditem, cheguei tarde. Tudo começou no segundo semestre de 2010, e muita gente ali já se conhecia há algum tempo. Ainda assim, não houve desconforto. Todos estavam dispostos a discutir os diferentes pontos de vistas. Nada de análises técnicas e muito complexas – apenas a exposição da interpretação de cada um.

A ideia, a princípio, era escolher sempre um clássico da parceria da Companhia das Letras com a Penguin. Depois de um tempo, passaram a intercalar uma obra dessa coleção com outra do catálogo geral da editora. Ao meu ver, apesar de ter conhecido o Clube há pouco tempo, a fórmula funciona bem. Afinal, não importa se é clássico ou contemporâneo. Quem gosta mesmo de literatura não nutre esse tipo de preconceito.

Até aqui, tudo ficou bem nebuloso, eu sei. Mas certos assuntos não merecem um desenvolvimento metódico. O tema em questão é um dos Clubes de Leitura da Companhia das Letras. Nenhum dos grupos é restrito, e dá pra conferir a relação de todos no site da editora. O livro discutido na última reunião, que aconteceu essa semana, foi A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery.

O assunto do desinteresse pelo título certamente foi retomado nos minutos finais. Alguém disse que se não fosse pelo Clube, nunca teria se interessado por aquela leitura. Parecia unânime – todos gostaram da obra, mesmo com poucas ressalvas.

Parece banal, não é? Mas para mim foi parecido com aquilo que Oskar Schell considerava digno o suficiente para entrar em sua lista de “raisons d’être”. É basicamente a sensação de não estar só – a certeza de que você não é a única “estranha” a levar a paixão pela literatura tão a sério.

Para concluir, dou voz à Muriel Barbery. É aquela história – quando nos faltam palavras, há sempre alguém na literatura para nos amparar – sem impor qualquer obstáculo. Nada melhor que poder compartilhar o sentimento por ela descrito.

“Quando me angustio, vou para o refúgio. Nenhuma necessidade de viajar; ir juntar-me às esferas de minha memória literária é suficiente. Pois existe distração mais nobre, existe mais distraída companhia, existe mais delicioso transe do que a literatura?”

Anúncios

3 comentários sobre “O refúgio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s