Nem tão infantis

Para não perder o costume, terminarei a série “dia das crianças” falando sobre literatura. Se há um ano recomendei livros de literatura brasileira, este ano escolhi apenas livros de literatura estrangeira. E existem outras particularidades – os livros da lista foram divididos em duas partes (ou quase isso). A primeira é composta por livros escritos para crianças, mas que abordam temáticas mais sérias (de forma sutil, em alguns casos). O que os deixa tão propício para crianças quanto para adultos. A segunda representa uma fase intermediária. São livros para adolescentes, da categoria Young adult, que apresentam enredos interessantes para adultos.

Existe algo nostálgico sobre a primeira parte. São aqueles livros que muitas vezes lemos sem muita atenção durante a infância e, depois de alguns anos, ao realizar uma releitura, pensamos – por que eu li isso tão jovem? Desperta um olhar mais atento, e ao mesmo tempo saudosista.

É bem a minha cara começar com o mais óbvio – e também predileto das modelos mais famosas do mundo, diga-se de passagem. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. O autor aparentemente se inspirou no período em que ficou isolado no Deserto do Saara após a queda de um avião, durante a Segunda Guerra Mundial (ele era piloto). Esse livro representa com riqueza o que descrevi acima – quando reli já mais velha, fiquei pensando nos tipos de reflexão que a leitura me proporcionava quando era criança.

L. Frank Baum, em O Mágico de Oz, conta a história de Dorothy. Um ciclone a leva junto com seu cachorro, Totó, até a Terra de Oz. Existe algo meio nonsense na história, e a leitura exige um nível de devaneio semelhante a de outro clássico escrito para crianças: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. O desfecho de ambos alivia um pouco a sensação de loucura, mas o enredo é insano. Reparem: a garota cai em um buraco que não acaba nunca quando corre atrás de um coelho branco. E, bem, vocês sabem que o que ela encontrará por lá são coisas ainda mais malucas. Para crianças, tudo parece engraçadinho e simpático – intuito seguido pelo aplicativo para Ipad inspirado na obra de Carroll. Alice ganhou uma versão toda interativa, bem interessante para os pequenos. Aos mais velhos, a leitura proporciona incontáveis (e curiosas) interpretações.

No colégio, os professores de português sempre diziam que estava na hora de abandonar os livros “com figurinhas”. Nunca simpatizei muito com essa expressão, pois sempre me lembrava dos livros em quadrinhos – e ficava, ao menos quando criança, com a impressão de que aquilo não era literatura. Felizmente, enchi minha infância com livros e revistas do gênero. Escolhi três dos meus favoritos daqueles saudosos tempos…

Conheci As Aventuras de Asterix, de Réne Goscinny e Albert Uderzo em alguma apostila bem antiga, provavelmente do Ensino Fundamental. Cansada de ler tirinhas soltas, fui atrás dos livros. Na época, li todos publicados em português. E tinha colegas que faziam o mesmo. O que achávamos engraçado e parecia despretensioso estava cheio de referências interessantes – que certamente passavam despercebidas perante nosso desconhecimento. Fatos históricos, trocadilhos nos nomes dos personagens, religiosidade, entre outros.

Sem contar as citações de figuras importantes da cultura pop. Personagens das Aventuras de Tintim, de Hergé, Dupond e Dupont fazem “participação especial” em um dos livros de Asterix. A obra ganhou uma versão cinematográfica há pouco tempo, e, como muitas pessoas da minha idade, conheci inicialmente pela versão em desenho animado. Tintim é um pouco mais sério, se comparado com o trabalho de Uderzo e Goscinny. Tanto que o autor foi acusado de racismo pelo modo como retratava os africanos na história. Embora voltado para o público infantil, ele trazia algumas questões dignas de discussão adulta.

Para finalizar a primeira parte, escolhi o trabalho do britânico Martin Handford. Não há muito texto – apenas ilustrações em páginas imensas. Quando crianças se divertiam com muito pouco, Onde Está Wally? era uma ótima pedida. Dava para passar tardes inteiras atrás do carinha vestindo uma camisa listrada em vermelho e branco e o típico óculos fundo de garrafa. Prefiro não desenvolver muito minha opinião por aqui, mas considero alguns volumes extremamente existencialistas. E se eu não tinha tato para perceber isso antigamente, já notava algumas coisas meio bizarras. Pessoas sendo torturadas, Leões usando o banheiro, para citar alguns Exemplos. O site youpix fez um post destacando algumas destas coisas estranhas.

Os três livros finais da minha pseudolista são young adults. Queria incluir outros, mas o post ficaria gigantesco e ninguém leria (alguém chegou até aqui, por sinal?). No Brasil, assemelham-se ao gênero infanto-juvenil mesmo – livros para adolescentes, com histórias que abordam temas mais sérios que permeiam o universo de jovens prestes a encarar a vida adulta.

O primeiro me leva para terreno desconhecido. Depois de assistir ao filme, descobri que era inspirado em um livro. It’s Kind of a Funny Story, de Ned Vizzini, conta a história de Craig, um jovem de 15 anos. Sobrecarregado com o novo colégio e incapaz de suportar as dificuldades que vão lhe aparecendo aos poucos, ele se interna em uma clinica psiquiátrica. O filme é até simpático – não tem nada de extraordinário. Se o livro seguir a mesma linha, aviso de antemão – não é tão bobo quanto parece. Na clínica, ele encontra pessoas com problemas sérios de verdade – e só assim percebe o quanto seus dilemas parecem pequenos. O longa chegou ao Brasil com um nome bastante ridículo (caso alguém se interesse): Se Enlouquecer, Não Se Apaixone.

Não falarei muito sobre Looking for Alaska, de John Green, pois já o resenhei por aqui. É o típico livro sobre os questionamentos característicos de jovens americanos presos na infernal high school (o nosso ensino médio). É uma obra sutil, e a história é bem envolvente. Um bom livro. Citei a tradução na resenha, mas preferiria não fazê-lo outra vez.

Para finalizar, o primeiro young adult que li – em inglês mesmo, há muito, muito tempo – The Perks of Being a Wallflower, de Stephen Chbosky. Já tem tradução para o português. O personagem central, Charlie, embora não aparente, é bastante complexo. Ele também acaba de entrar no ensino médio e narra seus percalços. O que mais gosto neste livro é a forma como o jovem cresce intelectualmente. Um dos professores lhe apresenta os clássicos da literatura e, a cada contato com esses autores, Charlie parece amadurecer sua escrita.

A obra contempla muito bem a temática em questão neste post. A problemática da obra – que certamente não revelarei – aborda um assunto sério, que não pode ser encarado com muita facilidade por qualquer adolescente.

Dicas finais, a quem interessar possa:

O Meia Palavra fez um ótimo post com os Livros que marcaram nossa infância.

Em maio de 2010, o Guardian fez um especial parecido, com a seleção dos melhores livros infantis.

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