Frágeis apenas na aparência

A obra é detalhista – em poucas páginas, o leitor sente-se nas ruas de Salvador, como se acompanhasse em tempo real uma história contada por um transeunte. Capitães da Areia não obteve o status de livro mais conhecido de Jorge Amado em vão. Chega a ser redundante falar sobre os problemas ao transportar um trabalho da literatura para o meio cinematográfico, mas seria um erro não destacar um fator tão importante quando o título em questão possui tamanha relevância.

A história apresenta um grupo de meninos de rua abandonados pela família. Realidade muito comum no Brasil, mas que aqui é contada tendo Salvador como pano de fundo. Ao mesmo tempo em que precisam aprender a lidar com as mudanças decorrentes da adolescência, lutam pela sobrevivência nas ruas da cidade.

Os Capitães da Areia são um grupo numeroso de garotos que vivem em um antigo trapiche abandonado. Neste local, eles planejam de tudo – desde pequenos furtos até golpes mais elaborados. Um contraste entre as nuances características da infância e da vontade de assumir uma postura adulta. No mesmo espaço, eles também recebem aulas de capoeira ministradas por Querido-de-Deus (Marinho Gonçalves), um famoso capoeirista da cidade.

As personagens centrais possuem perfis bastante peculiares. O filme concentra a trama em três deles. Pedro Bala (Jean Luis Amorim), apesar de ter apenas 15 anos, é a cabeça do grupo. Ele concilia a fragilidade jovem com a postura adulta para zelar por todos os meninos e organizar os planos. Professor (Robério Lima) é o “intelectual”, que sempre proporciona momentos de descontração ao grupo, contando-lhes histórias e também assume as tarefas de líder na ausência de Pedro Bala. Para fechar o triângulo amoroso, surge Dora (Ana Graciela). Ela perdeu os pais e, desde então, transformou as ruas em lar, acompanhada pelo irmão mais novo. Professor, que se encanta de imediato, leva-a ao Trapiche. O contato inicial com o resto do grupo é conturbado, mas a personalidade forte da garota logo impõe respeito.

No livro, todas essas particularidades são bem exploradas. A obra é dramática, e, embora a leitura seja envolvente, a carga psicológica é pesada. Um personagem como Sem-Pernas, por exemplo, dá conta desta complexidade. Ele é uma das criaturas mais conflitantes – ao mesmo tempo em que tira vantagem do fato de ser aleijado para ajudar o grupo (ele aproveita sua condição para conquistar a piedade de senhoras ricas e, depois, dá passagem para que o grupo realize o roubo), convive com o desejo de ter uma família de verdade.

Cecília Amado e Guy Gonçalves optaram por fazer uma releitura mais amena, sem omitir por completo as passagens desoladoras enfrentadas pelos personagens. Como diretor de fotografia, Guy Gonçalves fez bom uso dos cenários marcados pelas cores quentes de Salvador. A trilha sonora de Carlinhos Brown, bem trabalhada, oferece a ambientação ideal ao enredo.

Na tentativa de criar uma versão mais leve de Capitães da Areia, a cidade e as tradições religiosas características, como o candomblé e a festa da Iemanjá, que apenas pontuam certos trechos da obra, conquistaram papéis maiores na versão cinematográfica.

Capitães da Areia prova-se como um bom filme. Uma homenagem mais “pop” e afim com a celebração do centenário de Jorge Amado, que será comemorado em 2012.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero] 

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