Lirismo inquietante

Poetas possuem fama de eternos incompreendidos. Basta uma biografia sintetizada para conhecer criaturas de alma inquieta, que utilizam a poesia como fuga aos dilemas existenciais que os acometem a todo o momento. Borboletas Negras, o novo filme da diretora Paula van der Oest, reproduz o arquétipo do artista fadado à incompreensão.

O longa relata a história da poetisa sul-africana Ingrid Jonker. Embora sua produção tenha um forte vínculo emocional, a autora imbuía certa crítica social ao seu trabalho, e integrava um grupo de artistas e escritores sul-africanos que enfrentava a censura do governo durante o Apartheid, na década de 1960.

Além do comportamento instável, Jonker viveu da forma mais turbulenta possível. Casou-se pela primeira vez para poder sair de casa, devido à complicada relação com o pai. Chefe do departamento de censura do governo, ele vetou produções de inúmeros amigos da poetisa.

O segundo longa da holandesa Paula van der Oest transmite o lirismo de uma forma intensa e dramática. Os versos inseridos em algumas passagens soam como um respiro perante a inquietude da artista. Carice van Houten coloca sua personagem em cena de uma forma paradoxal – mesmo em momentos conflitantes, ela encara a situação com trejeitos quase serenos. Como se tentasse reproduzir o lirismo característico da poetisa em passagens críticas.

A instabilidade emocional era uma das principais responsáveis por decepcionar pessoas próximas de Jonker. Confrontada por muitos romances, ela se via constantemente desesperada por não encontrar a forma ideal para manter um relacionamento equilibrado. Sendo o mais importante – segundo o longa – a relação com o escritor Jack Cope (Liam Cunningham), responsável pela seleção de poemas publicados em Smoke and Ochre – trabalho realizado enquanto a autora esteve internada em um manicômio.

Apesar de algumas falhas, a fotografia oferece um suporte ideal ao filme. A despeito das belas paisagens de Capetown, é interessante um dos recortes ocasionais, onde é mostrado o quarto de Ingrid – repleto de poesias escritas nas paredes. Além de a fotografia sugerir a sensação de tranquilidade da protagonista, ao mesmo tempo em que seus conflitos gritam de forma  inquietante na tela.

Para não fugir à tradição, a autora só teve sua obra reconhecida anos após sua morte quando Nelson Mandela leu seu poema The Dead Child of Nyanga (A Criança Morta de Nyanga) em seu primeiro discurso, em 1994 (Ingrid cometeu suicídio em 1965), logo ao fim do Apartheid.

Em Borboletas Negras, Paula van der Oest optou por destacar um pouco do ideal de inquietude dos poetas, para agradar aos seus espectadores. Mesmo sem se aprofundar em questões sérias dos cinco últimos anos de vida de Ingrid Jonker, o filme se sustenta devido à abordagem sensível e personagem repleta de conflitos capazes de formatarem uma boa história.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

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