Com as botas pesadas

Considero um tanto macabra esta “celebração” de dez anos do 11 de setembro. A ideia de reviver um acontecimento como esse me incomoda em demasia. Tenho tudo muito vivo nas minhas memórias. Consigo lembrar exatamente da primeira imagem com a fumaça negra tomando conta daquela longa estrutura prateada. Os gritos, as pessoas correndo, o desespero.

Era manhã, e a temperatura era amena. Eu estava deitada na cama dos meus pais, pronta para ir ao colégio – naquela época estudava à tarde – e ao mesmo tempo em que folheava uma revista, acompanhava algum desenho animado na televisão.

A interrupção abrupta não chocou tanto quanto o esperado. Pela pouca idade, mal compreendia o que se passava. E algo me dizia que era melhor ter medo de tentar entender. Ainda assim, aquelas cenas não saíam da minha cabeça.

Tudo aquilo só adquiriu um valor real quando comecei a sentir minhas botas cada vez mais pesadas. Movida pela minha curiosidade infantil, procurava saber cada vez mais conversando com professores e pesquisando na internet. Não havia nada que aliviasse o peso das botas. De certa forma, era como se eu estivesse ali. Conseguia me imaginar exatamente na região do acidente, confusa, sem saber como reagir e sufocada pelo desespero coletivo.

Todo ano, os noticiários faziam questão de exibir incessantemente as mesmas imagens. O mesmo trauma.

Não quero discutir sobre questões políticas ou nada do tipo. Dez anos depois, apesar da lembrança viva de cada detalhe do mesmo dia em 2001, não senti a menor vontade de ler matérias especiais sobre o assunto. Era uma forma de respeito indireto por todas as famílias abaladas pela tragédia – ou mesmo uma mera fuga ao horror que o acontecimento provocava em mim.

Até que não consegui conter o impulso de ler um artigo de Jonathan Safran Foer escrito à New Yorker. Foi imediato – poucos caracteres depois e eu já estava com o bloco de papel aberto, anotando o número de chamada da segunda obra do escritor na biblioteca.

Para alguém que não anda acertando muito na vida, posso dizer que, enfim, acertei. Peguei o livro pensando no atentado terrorista como pano de fundo e no artigo, mas fui enganada – da forma mais positiva possível. A primeira parte do livro mostrou coisas lindas e aplicáveis a incontáveis categorias de acontecimentos da vida.

Não falo como se fosse um livro de autoajuda, daqueles que você lê uma frase, toma como motivação para seguir em frente e provoca uma revolução otimista na vida. Não confio nesse tipo de literatura. Mas há tempos um livro não me comovia com tamanha intensidade – e da forma mais sensata possível.

Como obtive Extremamente Alto & Incrivelmente Perto ontem, ainda não tive a oportunidade de circular com ele. Preciso me policiar com certa urgência. Acontece que toda vez que interrompo a leitura sou surpreendida por um comportamento atípico que foge ao meu controle. Sério, alguma vez vocês já fecharam um livro e o abraçaram com muita força, como se fosse uma pessoa? Não me lembrava de fazer isso há muito tempo.

Para não perder o costume, desviei do assunto. Acontece (com uma freqüência que também foge ao meu controle). Após dez anos, mais forte que a tristeza transmitida pelas cenas, é a sensação de me sentir incrivelmente perto. E todos bem sabem – quando faltam palavras, as citações falam por nós:

“Naquela noite, naquele palco, por trás daquela caveira, me senti incrivelmente perto de tudo no universo, mas ao mesmo tempo extremamente sozinho. Pela primeira vez na vida, me perguntei se a vida valia todo o esforço necessário para se viver. O que, exatamente, fazia a vida valer a pena? O que há de tão horrível em permanecer morto para sempre, não sentindo nada e nem mesmo sonhando? O que há de tão especial em sentir e sonhar?”

“E alguma coisa doce não cairia mal”. Bem dito, Foer.

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