It all ends…

Vim do interior. Um lugar pequeno de verdade, com poucas ruas, onde todos se conhecem. Posso comprovar – às vezes o vizinho descobria o destino da minha viagem durante o feriado antes de mim. Nasci em uma capital com cara de interior, mas desde meu primeiro mês de vida, habitei em cidades de nomes estranhos no estado do Mato Grosso do Sul. A mudança viria apenas aos 10 anos, em 2001. Pouco antes do fim de maio, já estava com malas e caixas prontas para me mudar para a capital.

Primeiro desafio? Adaptar-me o mais rápido possível à escola em apenas um mês. Julho sempre foi mês de férias, e a quarta série do ensino fundamental seguia normalmente no mês de junho. No primeiro mês de aula, eu conversava pouco. Logo, tinha tempo de sobra para observar o comportamento de todos os meus futuros colegas. Havia um grupo de meninas que circulava sempre com um livro em mãos. A capa era verde, com um menino sorridente na capa.

A memória me falha depois de tantos anos, o que me impede de reproduzir com precisão os momentos seguintes. Acredito que após um pouco de hesitação, perguntei a elas o título daquele livro. “Harry Potter e o Cálice de Fogo”. Parte de uma série, a versão traduzida do quarto título fora publicada recentemente.

Eu já gostava de ler, e precisava de assunto para fazer amigos. Uma velha frase clichê não poderia explicar minha situação com tamanha perfeição – eu precisava unir o útil ao agradável. Torci para que fosse tão interessante quanto parecia e pedi os quatro livros de presente.

Como nem tudo é perfeito, não me bastou arranjar companhia para as férias. No mês de julho de 2011, adquiri um vício. Razoavelmente saudável, arrisco dizer. Pois consistia em leitura – um tanto obsessiva, mas isso era um detalhe. Para uma criança de dez anos, a história criada por J.K. Rowling era perfeita. Possuía todos os detalhes ideais para manter uma pessoa com os olhos grudados nas páginas por horas a fio.

Junto com a minha descoberta, vieram as notícias sobre a adaptação dos livros para o cinema. Imaginem a paixão desmedida (e agravada)! Passei a dar trabalho aos meus pais. Colecionava revistas, álbum de figurinhas…e, além de reler cada título, tentava sanar minha ansiedade por novidades com fanfics. É, sou do tempo dos fóruns de discussão do Yahoo – e também de outros sites, que surgiam aos poucos naquela época.

Com Harry Potter, aprendi – embora de forma singela – sobre valores. Aquelas coisas que você fatalmente aprende com a vida, mas que estavam ali, camufladas em incontáveis passagens das sete obras.  A série define o primeiro esboço do valor da ficção em minha vida. Cada momento com um livro em mãos ou na sala de cinema servia como refúgio. Era hora de se desligar de um mundo e adentrar em outro – mágico, e que provocaria puro deleite até mesmo agora. Sim, agora. Com vinte anos, meus olhos enchem de lágrimas até mesmo o trailer da segunda parte da última adaptação da saga.

Qualquer um pode me dizer que é exatamente esta a graça da ficção, e não necessariamente de Harry Potter. Certamente. Porém, foi assim que tudo começou para mim. Foi a “historinha bobinha de um bruxo” a responsável pelo meu despertar literário. O quinto livro, por exemplo, mostrou que eu poderia encarar um livro com mais que 500 páginas sem medo.

E acrescento – embora muitos desprezem a saga e a considerem demasiado tola, quando procuro afastar meu lado fã, visualizo sim um grande valor literário. Todos os livros são bem escritos, e considero a autora extremamente hábil ao unir todos os pontos da história. Sem contar toda a criação do mundo dos bruxos. É tudo bastante delicado e minucioso.

É doloroso imaginar que não precisarei mais madrugar na porta de uma livraria à espera do próximo livro. Muito menos correr para garantir meu ingresso para a estreia do próximo filme. Cresci, literalmente, com Harry, Hermione, Rony e todos os outros. Acompanhei o amadurecimento de todos enquanto trilhava meu caminho para a vida adulta.

Uma frase resume o que sinto com relação ao fim da saga – “I feel like an old friend died”. Fica uma sensação de luto, como se eu acabasse de me despedir de um grande amigo. E por isso, preciso dizer obrigada à J. K. Rowling e, claro, a todos os diretores e atores envolvidos ao longo de todos esses anos. Pela companhia, pelas preciosas lições, por despertar tantos jovens para a literatura. Por comover sem ser apelativo. Por último, e não menos importante – pela habilidade mágica de unir tantas pessoas.

(* Créditos à Marina por mencionar a frase)

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