Não se engane pelo título

Se fosse possível resumir Namorados Para Sempre, de Derek Cianfrance, em uma palavra, esta seria angústia. A narrativa não linear desenvolve aos poucos os pontos principais da história de dois jovens. O primeiro contato visual, sem muitos movimentos, passa a impressão de uma realidade comum. Os perfis denotam estabilidade – um casal, uma filha e boas condições de vida.

Quem se prender à primeira impressão assistirá o esfacelamento desta. Paulatinamente, são apresentadas criaturas presas no anseio pela saída, amargurados e perdidos em meio à tentativa de abrir as portas e permitir a entrada da felicidade. Cindy (Michelle Williams) é médica – divide-se entre o trabalho e a família. Dean (Ryan Gosling), por sua vez, não possui a mesma estabilidade da parceira. Mas guarda em si um amor incomensurável, e com todo esse cuidado procura alentar a esposa e a pequena Frankie, filha do casal, vivida por Faith Wladyka.

Em Namorados Para Sempre, nada é entregue de forma objetiva, desviando-se ao máximo de possíveis obviedades. No meio do caminho, há inúmeros pontos controversos na história de ambos, oferecidos como pequenas peças de um imenso quebra-cabeça, a ser montado ao longo dos 112 minutos de filme.

No decorrer do longa, passado e presente são intercalados – o futuro permanece como extensão, reservado à imaginação de um público mais atento. Tanto Dean quanto Cindy saíram de círculos familiares conflitantes. A todo momento, apresenta-se o contraposto entre as profissões. Cindy tem uma carreira séria, com compromissos diários. Ela vê em Dean um grande potencial para tornar-se um bom profissional, mas ele não se enxerga desta maneira e permanece em um trabalho que lhe oferece certo comodismo.

Michelle Williams – indicada ao Oscar por este papel – e Ryan Gosling, dão vida aos personagens em uma interpretação munida de naturalismo, como se aquela realidade fosse-lhes comum. Há uma forma bastante espontânea de conduzir o enredo – mesmo com o contraponto, tão evidenciado pelos momentos de felicidade e de extrema tristeza, eles encontraram uma fórmula ideal, tornando a atuação convincente.

Mas não se deve enganar pelo título atribuído ao longa no Brasil. Batizado de Blue Valentine no exterior, o nome traduz perfeitamente a melancolia, fio condutor da obra, bem como a fotografia, responsável pela presença constante da cor azul na maioria dos cenários.

O título Namorados Para Sempre passa a impressão de um conto de fadas, uma história com final feliz. Mas o que se vê foge bastante a essa premissa. Derek Cianfrance faz questão de pontuar a não existência do relacionamento ausente de conflitos. Cindy, por exemplo, representa uma constante do amor – o ser humano não possui estrutura psicológica para suportá-lo em seu sentido mais verdadeiro e profundo.

O longa reproduz a dificuldade de lidar com a efemeridade de todas as formas de sentimento, cada vez mais frequente em tempos modernos. Para assistir Namorados Para Sempre, é necessário uma preparação prévia – esteja pronto para ser abrigado pela consternação.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

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