Por que são as coisas tão irritantes?

Você mal acordou (se é que dormiu), acomoda-se já meio sem jeito no único banco livre da condução. Ao seu lado, alguém dorme com a boca aberta. Mas não se preocupe, não há tempo para se esquivar de uma braçada acidental ou ser tomado pelo susto de um súbito ronco. Afinal, você está semi-consciente.

E tenta absorver, sem muito esforço, os primeiros contatos com a humanidade, enclausurado em um ônibus cheio e com as janelas cerradas. Faz frio, e há uma tiragem ilimitada de pessoas que não sabem lidar com insinuações de vento enquanto se transportam de um lugar a outro.

Quando você se encontra em estado de completa serenidade (leia-se sonolência), ele começa. Não, não é o motorista em sua primeira descoberta do uso do freio. É aquela coisa inexprimível. Aquele barulho agudo, que é estridente sem ao menos elevar o tom. A situação se agrava a cada segundo. Pois sim, existe uma tentativa de sequência. Por um momento o som desaparece. De imediato, interrompe o esboço de alívio da nação busófola e continua. Livre, leve, solto, desafinado, irritante.

O seu âmago sempre alentado pela maior tranquilidade do mundo sofre leves perturbações. O instinto assassino que até então havia sido presenciado apenas em filmes de caráter duvidoso (ou mesmo assustador) começa a fazer ronda em seu corpo. Nas mãos, corre o suor frio. Em êxtase, a agonia passa a ser evidente pelo seu olhar de desconsolo. Você não consegue pensar em mais nada: apenas no anseio pela chegada ao destino, o momento em que enfim se verá livre do barulho infernal.

O farol sorri verde na última quadra. O coletivo faz seu último trajeto e você faz questão de descer alheio ao seu redor. Não é possível lidar imediatamente com outra surpresinha desagradável.

Eu odeio assobios no período matutino.

…assim como unhas arranhando o quadro negro, batucadas repetidas à exaustão – sim, não contente em ficar bastante irritada com assobios, também faço cara feia para passageiros que gostam de compartilhar aquela batida clássica do funk às oito da manhã.

Joe Palca e Flora Lichtman escreveram um livro com o intuito de explorar as origens e motivos dessas irritações todas. Annoying: The Science of What Bugs Us foi lançado recentemente. Não li, mas encontrei o vídeo de divulgação por acaso. E é interessante como, em poucos minutos, eles fazem uma brincadeira bem interessante com esses pormenores que nos tiram do sério.

Se você não quer começar o dia rememorando as coisas que te aporrinham, não aperte o play.

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