Quando um cinema deixa saudades

Mesmo na época em que não entendia com exatidão as diversas camadas de um filme, já me encantava com eles. Gostava de criar teorias e desenvolver incontáveis interpretações (muitas sem nenhum fundamento). Foi nesse período que viajei pela terceira vez para São Paulo. Por uma coincidência “divina”, dei de cara com o stand oficial da 30ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sem muita dificuldade e com um desenrolar deveras previsível, foram quatro anos de amor platônico. Se não fosse possível ir até São Paulo no final de outubro, pedia que alguém comprasse o catálogo e a programação para passar vontade. E, como boa consequência, guardar alguns títulos para procurar nas locadoras com meses de atraso. Ou torcer para que um deles entrasse em cartaz em um dos poucos  (três, caros leitores) cinemas da cidade – uma probabilidade incrivelmente distante da realidade de muitos campo-grandenses.

Para toda regra, porém, há uma exceção. E é lógico, não era a melhor coisa do mundo, mas tínhamos alguma coisa. Um cinema discreto, assim como o espaço físico ocupado até novembro do ano passado. A programação demorava de duas a três semanas para ser alterada; e com apenas uma sala de projeção, os horários alternavam dois filmes em cartaz. Não é fácil ser cinéfilo em uma cidade onde tal prática não é vista com bons olhos. Motivo que levava a maioria dos apaixonados pela sétima arte a aproveitar a singularidade do local – sem reclamar (muito).

Demorava, é claro. Mas os filmes da Mostra chegavam aos poucos ao CineCultura. Às vezes eram “reaproveitados” pelo Cinemark após alguns meses, ou resgatavam películas de baixa circulação. Mesmo quando preferia assistir aos filmes em casa, tinha aquela sensação de alívio – pelo menos outras pessoas poderiam assistir certas obras na telona, sem precisar sair de Campo Grande. Além de ser uma alternativa ideal para fugir do tumulto do único shopping da capital.

No final do ano passado, o site foi atualizado com a mensagem “O CineCultura está com suas exibições temporariamente suspensas” – e é pouco provável que volte a funcionar. Difícil passar quase dois meses em Campo Grande sem sentir saudades do local. E mais ainda – saber que muita gente perdeu a única opção para conferir filmes fora do circuito comercial.

Este mês, para completar essa espécie de “saudade cinematográfica”, recebo a notícia do fechamento do Belas Artes, em São Paulo. Lembro-me bem, quando o clássico de Alain Resnais me levou ao local pela primeira vez. Medos Privados em Lugares Públicos (no original, Coeurs), está em cartaz até hoje. E não foi difícil me agradar. A começar pela localização, na Rua da Consolação, bem próximo à Avenida Paulista. Os nomes das salas prestam homenagem a figuras conhecidas, como Oscar Nyemeyer, Carmen Miranda e Cândido Portinari. A programação é muito justa – filmes bons ficam por mais tempo em cartaz, mas sempre há espaço para as novidades do mundo dos cinemas. Sem falar das sessões especiais, como as do CineClube e o Noitão.

Muita gente não faz questão. E encaram como se fosse só um cinema a menos – como o Gemini, fechado no final do ao passado. Para Campo Grande, não faz muita diferença. Afinal, eram frequentes as sessões exclusivas – eu, algum amigo e mais dois – no máximo três – desconhecidos. Minha preocupação também ultrapassa a relação nostálgica dos frequentadores com os cinemas – em especial, no caso do Belas Artes.

Não parece, mas perdemos muito com isso. Campo Grande não tem tradição com cinemas de rua. Logo, é pouco provável que tenhamos a oportunidade de conferir obras não comerciais fora dos nossos computadores ou televisões. Em São Paulo, o empecilho fica por conta dos shoppings. É mais fácil – têm estacionamento, lojas aos montes e praça de alimentação (embora eu prefira aproveitar a Av. Paulista, como já comentei anteriormente).

Mas vale reforçar: em cinemas de shoppings, se o filme não é bem explicado – e, em alguns casos, óbvio – as chances de passar mais que duas semanas em cartaz diminui. Nos cinemas de rua, as obras cinematográficas permanecem em cartaz por mais tempo. E há mais espaço para realização de eventos.

Independente do desenrolar e de todos os ‘poréns’ dessas histórias, fica a saudade. O que nos resta é recordar os bons momentos vividos nesses lugares. O Belas Artes ainda não fechou, e quem estiver na capital paulista pode aproveitar a oportunidade e ir ao Noitão – ao que tudo indica, a última edição antes do fechamento. Mais informações no site da Folha.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s